Preservem o marítimo!

Você conhece algum tripulante de navio?

Num mundo que depende do transporte marítimo para ter alimento, combustível e bens de consumo, talvez devesse. Mas é improvável.

Há menos de 2 milhões deles em todo o planeta, e a reputação que carregam não é precisamente das melhores. Injustiça gritante, face à participação que esses homens e mulheres têm em cada dia das nossas vidas.

Neste sentido, este ano, declarado Ano do Marítimo pela Organização Marítima Internacional, pode ser um bom momento para reconsiderar o lugar da gente do mar na sociedade moderna.

Em um artigo para a edição de número 23 da publicação inglesa Alert!, da The Nautical Institute, o executivo-chefe do centenário grupo inglês Lloyd’s Register, Richard Sadler, oferece uma comparação que considero muito interessante.

Tripulações de aeronaves são tratadas com cortesia e respeito, a ponto de ter um canal a elas dedicado para embarques e desembarques. Entretanto, se a tripulação é de um navio, o tratamento é marcado por indiferença, quando não por hostilidade.

Em condições normais, ninguém pensaria em impedir o desembarque de um tripulante de avião, privando-o de seu tempo em terra. Por outro lado, todos os dias, por todo o mundo, há marítimos que são tratados como ameaça, obrigados a permanecer a bordo, proibidos de ir à terra.

Por que tal distinção?

Para Sadler, “não se pode ter um negócio responsável, sustentável ou seguro sem tecnologia de qualidade que seja gerenciada e operada de forma correta por gente qualificada e em um ambiente e cultura propícios”.

Atualmente, a cultura predominante nos portos é a da opressão ao marítimo.

Não se trata apenas de negar a ida à terra, ou de faltar com o respeito no trato com os tripulantes dentro do próprio navio, que lhes serve de casa e do ambiente de trabalho.

Mais e mais, há marítimos sendo penalizados administrativa e criminalmente por suas condutas em acidentes, mesmo quando não há culpa nem dolo nelas.

Essa “cultura da culpa” pode satisfazer a pressão da opinião pública e determinados interesses políticos a curto prazo, mas manda para o futuro uma fatura salgada: o afastamento daqueles que, de outro modo, poderiam tripular, bem e responsavelmente, os navios de que precisamos para ter a vida que temos.

Importa, pois, seja revisto o tratamento que damos aos que ganham sua vida a transportar pelo mar grande parte do que nos atende às necessidades, desejos e sonhos.

Navegar, mais do que nunca, é preciso. E o navegante, também.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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