PRATICAGEM | Três pontos

Não faz muito, li num e-mail o seguinte comentário sobre meu ofício:

Na era dos satélites Gps Sonares de última geração e equipamentos de segurança específicos cada vez mais modernos, além de dizer que os comandantes de um navio navegam por dias e noites em mares encarando desafios de toda ordem, temporais, maremotos… E chegando ao porto precisar aguardar Até 3 dias por um prático que as vezes entra e sai do navio sem nada fazer sequer tocar no timao… É zombar do dinheiro do povo.

Já tinha tido contato com semelhante linha de argumentação antes. Desta vez, decidi tentar lidar com ela, sem pretensão de encerrar o caso. Estas são, antes que tudo, breves anotações.

Três são os pontos da minha réplica:

UM

Há diferença significativa entre a navegação em mar aberto e a realizada em águas restringidas. Neste último caso, há grande necessidade de “feedforward”, ou seja, de conhecimento prévio e específico sobre as condições em que se fará a faina. Nem satélites, nem ecobatímetros permitem ao operador criar o modelo mental indispensável para a manutenção do controle do navio com a antecedência que a segurança requer. Sem esta modelagem — que o prático tem, em regra, bem desenvolvida — a manobra será feita com base apenas no “feedback”, quer dizer, reagindo às informações obtidas durante o processo, o que sempre envolve uma certa demora em relação à observação que leva à decisão de reagir. A consequência mais concreta disto, apontada por Bruno e Lützhöft em http://www.lodstilsyn.dk/files/links/rapporter/shore-based%20pilotage_karl%20bruno_and_margareta_ltzhoft.pdf e conhecida de quem tem experiência com treinamento na área, é a menor eficiência com que se exerce o controle do navio.

Esclarecem os acadêmicos:

“If the control of a turn is solely feedback-driven, it will be difficult to come to the desired course because there is always a certain lag before the ship answers the helm. With feedforward-driven control, the helmsman can instead rely on his feeling for the ship’s manoeuvrability to stop the turn at the right moment.
Naturally, the success of feedforward-driven control in this case depends on how well the helmsman knows his ship. If he misjudges the situation, the control will be less effective.
The example illustrates that there are problems with both types of control. If control is based only on feedback, the controller will take action only if a deviation from the desired state occurs, and if control is based only on feedforward, the controller is unable to adjust his performance based on the actual state of the controlled system. It follows from this that the most efficient way to control any sort of complex process is through a combination of feedback and feedforward. (Hollnagel & Woods,2005; Johansson, 2005.)”

DOIS

Às vezes o sistema de praticagem geral resultados indesejados, como todo sistema sócio-técnico complexo. Por outro lado, o sistema produz os resultados esperados em quase todos os casos e demonstra resiliência em face do aumento do tamanho dos navios e da consequente redução da margem de segurança. Portanto, uma avaliação honesta da praticagem brasileira não pode se furtar a atentar para o que nela dá certo.

TRÊS

A praticagem brasileira não zomba do dinheiro do povo. A uma, porque quem remunera o prático é o tomador do serviço, o armador. A duas, porque contribui, em inúmeros casos, para um uso mais eficiente dos portos brasileiros — menores gastos com dragagem e aumento das janelas de oportunidade de manobra, por exemplo.

Gostaria que as pessoas pensassem e estudassem mais antes de se arvorar em juízes de causas que pouco ou nada conhecem.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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