Política e cegueira cognitiva

 

Quando se trata com pessoas adultas e racionais, é de se esperar que seu comportamento seja compatível com essas qualidades e que a sua interpretação dos fatos seja coerente. Não é o que a gente vê quando observa a opinião ou a reação das pessoas diante de situações muito comuns do cotidiano.

Quando um político é defrontado com uma acusação de corrupção, ele se defende como pode e, mesmo diante de todas as evidências, dá explicações que nada explicam na tentativa de preservar o seu mandato ou cargo. Diretamente envolvido no problema, ele tem muito a perder. Não se espera que assuma as faltas cometidas, devolva o que roubou, peça o boné e vá para casa. Nem que seus pares (comparsas) exijam com veemência sua demissão, já que costumam incorrer nos mesmos erros e amanhã poderão ser a bola da vez. Até este ponto, poderíamos dizer que o interesse próprio explica seu comportamento, apesar de não justificá-lo.

Mas, e quanto ao cidadão comum, que deseja o melhor para a sociedade da qual faz parte e que por si mesmo não levaria para casa um centavo que não fosse seu? Seria natural que este, uma vez comprovado o ato de corrupção, exigisse que o criminoso fosse punido com os rigores da lei, mesmo que fizesse parte do partido do mesmo ou partilhasse da mesma ideologia. Isso ainda ajudaria o seu governo a expurgar dos seus quadros um membro que sabota seus esforços de boa governança e o partido a livrar-se de um peso indesejado, de uma maçã podre.

Mas não é isso que se vê. O que se vê são pessoas aparentemente honestas, inteligentes e sensatas esforçando-se para justificar o injustificável ou silenciando diante do comportamento dos que sugam os recursos do município, do estado ou da união e amealham, em curtíssimo intervalo de tempo, fortuna incompatível com seus rendimentos. Das duas uma: ou a honestidade está apenas nas aparências ou uma espécie de véu impede o indivíduo de ver o mal praticado por aqueles com quem compartilha as mesmas idéias ou os mesmos interesses.

A confiar-se na honestidade desses cidadãos, sobra o que os estudiosos chamam de “viés cognitivo”, termo geral que é usado para descrever como a mente humana é capaz de distorcer ou dar uma interpretação ilógica a um fato. É uma espécie de cegueira ideológica, sempre pronta a não enxergar ou a justificar os atos mais abomináveis, desde que praticados por um co-partidário ou chancelados por algum prócer do partido. Também pode ser o “raciocínio motivado”, segundo o qual, quando os fatos interferem na crença, o cérebro ignora os fatos. Assim, quando o cidadão percebe que sua crença quanto à infalibilidade do partido ou do líder pode vir abaixo diante da constatação de um fato, ele nega o fato. Simples assim. E muito triste, também.

 
Fonte: http://flaviohermes.blogspot.com.br/2012/01/raciocinio-enviesado-ou-motivado.html

 

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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