A fadiga e o prático: anotações

1. INTRODUÇÃO                                     

Operações de praticagem estão entre as atividades mais delicadas do sistema de transporte aquaviário. Fazer um grande navio transitar por águas restritas é uma tarefa de grande risco, como nota a Organização Marítima Internacional (2001), e coloca sobre os ombros do prático significativas responsabilidades para com o interesse público e o Comandante da embarcação. Para dar conta de suas atribuições, o profissional opera em um ambiente nem sempre inteiramente familiar e, não raro, desafiador para suas capacidades.

Neste texto, pretende-se apresentar de forma breve um dos principais fatores que podem comprometer a confiabilidade do prático — a fadiga — esclarecendo, ainda que de forma concisa, como este impacto se dá. A opção por abordar um único fator se deve à grande importância que a fadiga tem no funcionamento do sistema de praticagem, à variedade de seus efeitos e às suas repercussões potenciais.

2. A FADIGA E SUAS CAUSAS

A fadiga foi definida pela Organização Marítima Internacional (1999) como “uma redução na capacidade física e/ou mental resultante de esforço físico, mental ou emocional que possa comprometer todas as habilidades físicas, incluindo força, velocidade, tempo de reação, coordenação, tomada de decisão ou equilíbrio”. Em relação aos práticos, sua causa principal, de acordo com a Organização Marítima Internacional (2001) é a perturbação do ritmo circadiano causada pelas operações nas 24 horas do dia. Todavia, outros fatores contribuem para o desenvolvimento da fadiga, tanto aguda como crônica, como, por exemplo, a exposição constante a situações de risco elevado e a necessidade de lidar com navios e tripulações pouco familiares.

É importante ressaltar que, diante de semelhantes condições operacionais, que a fadiga, no contexto da praticagem, parece ser um subproduto do sistema, mais precisamente de uma tensão entre a eficiência – que requer manobras a qualquer momento – e a proteção das operações. Por esta razão, não se pode ignorar a possibilidade de que a fadiga, embora possa ser considerada um fator interno psicofisológico de comprometimento da performance, no sentido de que ocorre no interior do operador, tenha ao menos algumas de suas raízes em fatores externos ao profissional.

3. EFEITOS DA FADIGA SOBRE A PERFORMANCE DO PRÁTICO

A Organização Marítima Internacional (2001) destaca alguns dos possíveis efeitos da fadiga sobre o desempenho do prático. Um deles é a incapacidade de manter concentração: uma manifestação possível desta dificuldade é o direcionamento da atenção para um problema de menor importância. Outro efeito negativo é a deterioração da capacidade de tomar decisões – sintoma disto é um aumento na disposição de correr riscos. Há também um decréscimo na performance da memória, o que pode levar o prático a esquecer total ou parcialmente tarefas, eventos ou procedimentos, bem como aumento do tempo de resposta a todo tipo de situações.

Um prático fatigado fica sujeito a sofrer diminuição do controle corporal. A fala pode ficar mais lenta ou arrastada, e ele pode simplesmente ficar incapaz de permanecer acordado, o que pode levá-lo a episódios de sono que podem durar de poucos segundos a alguns minutos, com consequências potencialmente desastrosas. Por fim, há que se lembrar que a fadiga frequentemente afeta o humor e a atitude, deixando o prático mais taciturno e menos autocrítico em relação à sua performance.

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A fadiga, já se afirmou no item 2 deste texto, é, aparentemente, um subproduto do sistema no qual o prático está inserido. Assim, a responsabilidade pelo controle dos fatores que o levam à fadiga deveria ser partilhada por aqueles que têm a autoridade para fazê-lo: Autoridade Marítima, armadores e práticos. Infelizmente, o Estado brasileiro ainda não adota mecanismos de gerenciamento de fadiga que lhe permitam administrar o problema de maneira perfeitamente consciente, notadamente nas praticagens mais longas, como as da Amazônia; demais, há ainda pouco conhecimento, por parte dos práticos, a respeito da fadiga e de seus efeitos.  Em uma frase, não parece existir verdadeira cultura de proteção contra a fadiga no sistema de praticagem brasileiro.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORREA, Cármen Regina Pereira; CARDOSO JUNIOR, Moacir Machado. Análise e classificação dos fatores humanos nos acidentes industriais. Prod., Sâo Paulo, v. 17, n.1, Abr. 2007. Disponível em script=sci_arttext&pid=S0103-65132007000100013&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 05 out. 2012.

ORGANIZAÇÃO MARÍTIMA INTERNACIONAL.The role of the human element – List of human element common terms. Maritime Safety Committee Circular n. 813 e Marine Environment Protection Committee Circular n. 313. Londres, 1999.

ORGANIZAÇÃO MARÍTIMA INTERNACIONAL. Guidance on Fatigue Mitigation and Management. Maritime Safety Committee Circular no. 1014. Disponível em . Acesso em 05 out. 2012.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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