COMÉRCIO & LOGÍSTICA | A disputa entre a Vale e a China, um alerta para o Brasil

A briga entre a China e a Vale em torno dos supernavios de 400 mil toneladas da mineradora brasileira ganhou novos contornos e intensidade nos últimos meses.

Na semana passada, a armadora chinesa Cosco acusou a Vale de estar boicotando a sua frota de graneleiros, no que seria uma retaliação do Brasil e da mineradora à discriminação da Cosco — e da China — contra os navios “Valemax”.

Segundo o portal Tradewinds, especializado em transporte marítimo, Ma Zehua, presidente da transportadora, ameaçou ir ao ministro chinês do Comércio contra a atitude da Vale, e afirma que a pressão para manter os supernavios fora da China não partiu da empresa que dirige.

A Vale não confirma o boicote, mas há evidências de que ela se recusou a afretar navios do armador chinês por cerca de dois meses, ainda que o custo fosse o menor do mercado.

Este é mais um capítulo de um confronto cuja importância dificilmente pode ser superestimada. Em um córner, está um dos maiores exportadores de produtos primários do planeta; no outro, um dos grandes armadores do mundo, de propriedade do governo do maior importador e da segunda maior economia do globo.

A Vale já viu alguns de seus dez “Valemaxes” já entregues terem o ingresso em portos da China recusado com base em argumentos, baseados na “segurança”, cuja validade não foi suficientemente demonstrada. Por conta do veto, a Vale se viu forçada a construir um centro de transbordo nas Filipinas — uma solução onerosa que corrói eventuais economias de escala obtidas com a operação de tais gigantes do oceano.

A ação da Vale não arrefeceu a cantilena do presidente da Cosco, que insiste em brandir o temor de uma crescendo de problemas de segurança com os navios, problemas que, se existem, não diz quais são nem como podem ser resolvidos. Isto é intrigante quando se leva em conta que, dos 35 Valemaxes encomendados pelos brasileiros, 20 foram ou terão sido construídos em estaleiros chineses.

A situação tem todas as características de um embate crucial: interesses maiúsculos, grandes divergências, expectativas expressivas e enorme carga emocional.

Duas coisas há em torno deste enfrentamento que o Brasil precisa, mas aparentemente não consegue, entender adequadamente desde que aceitou o antigo Império do Meio como “economia de mercado”, em 2003.

Primeira: na China, comércio e Estado estão ligados por laços bastante estreitos, como têm estado por séculos. Não há como ter acesso bem-sucedido ao primeiro sem se entender (bem) com o segundo.

Segunda: a China fará o que acredita que deve fazer para controlar e manter sob seu controle a cadeia logística que serve a seus interesses estratégicos. E a Vale, com seu poder e influência sobre a mineração de ferro, é uma ameaça aos planos de Pequim de moldar o mundo de acordo com suas expectativas e necessidades.

Em resumo, a China parece usar o confronto com a Vale para mandar uma mensagem ao Brasil: ou vocês estão do nosso lado e faremos negócio, ou estão contra nós — e vocês sofrerão.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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