Arcaísmo, língua e justiça

Da coluna do Sírio Possenti no Terra Magazine, 2012.01.26:

O Ministro Marco Aurélio de Mello estava defendendo sua liminar (“A lei, ora-a-lei”, caderno ALIÁS, Estado de S. Paulo de 08/01/2012) e, de repente, escreveu: “Paixões condenáveis acabaram por reinar, vindo à balha as críticas mais exacerbadas”.

Meninos, eu nunca tinha visto a expressão “vir à balha”. Só conhecia “vir à baila”. Cheguei a pensar que Sua Excelência se houvesse equivocado. Precavido, consultei meu pai dos sábios (o dicionário Houaiss), e estava lá: balha, o mesmo que baila. “Balha” é a forma arcaica, em desuso, mas não na pena do preclaro ministro, conservador também em outras paradas.

Fiquei sabendo, também, da origem da expressão, ou seja, do sentido de “balha / baila”: é aquela cerca que, nas justas antigas entre cavaleiros, separava o espaço pelo qual devia mover-se cada cavalo (montado, claro), no ataque. Eram lutas “esportivas”, em alguns casos, mas também muito sérias, em outros, em defesa da honra de donzelas de cuja pureza se duvidara ou de rainhas acusadas de adultério, como foi o caso de Guinevere, defendida por Lancelot – basta ver Excalibur…

O caso é interessante por diversas razões. Uma delas é a da extensão do sentido a contextos diversos do “original”: “ir (vir) à baila (ou à balha)” era apresentar-se na arena da luta. Hoje, usualmente, “vir à baila” significa basicamente ser mencionado (estavam conversando sobre política quando veio à baila o tema das próximas eleições), um pouco como se o tema se apresentasse por si só. Pode implicar, mas não necessariamente, disputa entre diversas posições. Um tema pode vir à baila e ser tratado amistosamente pelos interlocutores. Já “trazer à baila” implica que alguém tomou a iniciativa de mencionar um tema – ele não se põe, é posto em cena.

Um processo como este é dos mais comuns: a história das línguas está cheia de metáforas e metonímias (e de analogias?), eventualmente esquecidas. Podemos perfeitamente saber ou aprender a empregar adequadamente (o sentido tem tudo a ver) “vir à baila” ou “trazer à baila” sem saber o que é “baila” e sem saber nada sobre a mudança ocorrida no sentido da expressão (já que não há mais bailas ou balhas). Mas é claro que saber isso não faz mal nenhum. “Justa”, como empregada acima, quer dizer ‘luta’ (mas não as do UFC, que são lutas ou brigas, nunca liças ou justas). Um sinônimo é justamente “liça” (espaço cercado por paliçada de madeira que rodeava os castelos medievais e onde ocorriam torneios, justas e combates, segundo o mesmo Houaiss). Por isso também se diz “entrar na liça” no sentido de ‘entrar em combate’. E o combate pode ser um debate.

Outra razão para considerar o caso é a grafia da palavra, indicadora de uma mudança de pronúncia: “balha” resultou em “baila”, como poderia ter resultado em “balia” (dei uma olhada no Caldas Aulete e, logo depois de “balha” (de que falamos), aparece “balhar” como variante de “bailar” – outra coisa que eu não sabia). Aqui tem um metaplasmo, acho, mas não vou fundo com minha modesta colher. Talvez o percurso seja balha > bailha > baila. Uma boa fonologia explica os processos. Quem considerar sem preconceito erros de grafia em palavras como filha, família, óleo, olho etc. experimentará o quanto estes sons são instáveis.

A terceira observação é interpretativa: a presença de uma expressão arcaica é um indício, tem algum sentido, merece (provoca) uma interpretação. A linguagem jurídica, entre nós, pelo menos, é brutalmente arcaica ou arcaizante. O fato pode ser lido como significando que as fontes das leis são longínquas; que elas, portanto, são conservadoras, que o direito é “natural”. Muitos provérbios têm estruturas que soam como linguagem arcaica, segundo um certo imaginário. A questão tem tudo a ver com outra, segundo a qual a verdadeira linguagem, com sentidos verdadeiros, é a antiga; daí o outro mito, o de que assistimos a sua deterioração. Em termos históricos, uma grossa bobagem. Mas tente convencer os que acreditam nisso!

Alguns poetas (Ferreira Gullar disse isso em entrevista recente) acreditam numa linguagem que diga a verdadeira natureza das coisas. Ela não seria lógica, por exemplo. E teria menos “sintaxe”, que alguns identificam com subordinação (Décio Pignatari andou dizendo coisas do tipo). Heidegger entrou nessa: o ser morava na língua antiga, eventualmente cheia de hífens…

Não há nenhuma dúvida sobre a natureza conservadora dos votos do referido ministro (do ministro em tela, ele talvez dissesse). Nem era necessário haver arcaísmos em seu texto para termos certeza disso. Com algumas pessoas e causas, no entanto, ele foi liberal, digamos. Cacciola muito apreciou este seu viés eventual.

Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.
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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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