O homem que (re)inventou o Natal

Texto muito interessante, este aí abaixo. Para nós, que pensamos que o Natal sempre foi como é, serve para fazer refletir. Eu, por exemplo, não tenhocomo deixar de pensar em quanto trabalho os fantasmas dos natais passados, presente e futuros teriam com os Scrooges modernos.

O próximo ano será marcado pelos 200 anos do nascimento de Charles Dickens (1812 – 1870). Mas para que esperar até fevereiro para celebrar a data? Melhor começar hoje, em pleno Natal, porque Dickens inventou –ou, melhor dizendo, reinventou– a quadra.

Exagero? Não creio. Estou sentado à mesa, o copo cheio, os restos do peru no prato. A família está reunida, as crianças destroem tudo em volta –mas, enfim, é Natal, ninguém leva a mal.

E se o leitor pensa que esse cenário-clichê é uma mera evolução do cristianismo, engana-se: o Natal moderno, como “festa da família”, onde se trocam presentes e “afetos” (peço desculpa pelo termo), nasceu em 1843. Com “A Christmas Carol/Um Cântico de Natal”, a história de Dickens sobre a ressurreição laica do misantropo Scrooge.

Pelo menos, essa é a tese de Les Standiford, em “The Man Who Invented Christmas”. Leitura que recomendo, sobretudo em plenas festividades.

Em 1843, Charles Dickens, então com 31 anos, já era um autor conhecido. Mas as finanças não estavam famosas e a crítica começava a afastar-se do Mestre.

Deprimido e quase arruinado, Dickens fez uma viagem a Manchester para participar num sarau literário e beneficente.

E foi durante essa estadia que Dickens se confrontou com a miséria da cidade. Alguns fatos: com 400 mil habitantes, o “pulmão industrial” do mundo apresentava uma taxa de mortalidade que era superior à média do país. Sobre a mortalidade infantil, 57% das crianças pobres morriam antes de chegarem aos 5 anos. Que fazer?

Um revolucionário diria: destruir o sistema capitalista e coletivizar os meios de produção.

Mas Dickens não era um revolucionário, apesar de ter em Karl Marx um leitor e um admirador. Para Dickens, as grandes revoluções só poderiam acontecer na consciência dos homens.

Dito e feito: em seis semanas de trabalho, Dickens erguia a história de um velho avarento, Ebenezer Scrooge, que na véspera de Natal é visitado por Três Espíritos: o Espírito do Natal Passado, do Natal Presente e do Natal Por Vir.

Não é preciso contar a história toda porque “Um Cântico de Natal”, em termos de ibope, só perde para a Bíblia. Exceto para dizer que, ao contemplar a sua miséria existencial, Scrooge decide corrigir a sua inumanidade. Como? Ajudando os menos afortunados; juntando-se à família do sobrinho; e, na linguagem sentimental de Dickens, descerrando o seu coração.

O livro foi um sucesso estrondoso e, em poucos dias, esgotava os primeiros 6 mil exemplares. Mas a proeza de Dickens, explica Les Standiford, não esteve apenas em erguer uma novela literariamente perfeita.

Dickens reinventou o Natal –uma data sem qualquer caução bíblica e que, mesmo no calendário religioso, não tinha a importância ritual da Páscoa.

Pelo contrário: apesar de ter sido determinado pelo papa Júlio 1º, no século 4, como a data do nascimento de Jesus, o dia 25 era, muitas vezes, o termo de um período vagamente pagão, marcado pelo excesso e pela libertinagem –seguindo, aliás, o espírito das festas de Saturnália, o antecedente histórico do Natal cristão.

Dickens “secularizou” e “humanizou” a data. Apresentou o dia 25 de dezembro como o momento em que os homens de boa vontade se reúnem: para celebrar a irmandade da espécie e pensar nos desvalidos desta vida. Com peru, claro, uma ave que Dickens sempre preferiu ao tradicional ganso (praticamente abandonado depois da publicação do livro).

Por esses dias, milhões de famílias encontram-se para celebrar o Natal.

Mas, no fundo, elas estarão a celebrar a criatividade de Dickens, um gênio que legou ao mundo uma obra –e, mais difícil ainda, uma festa.

João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do “Correio da Manhã”, o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Record). Escreve às terças na “Ilustrada” e a cada duas semanas, às segundas, para a Folha.com.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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