OPINIÃO: A greve no porto de Itajaí e a corrosão do caráter

Por Carla Dieguez, para a Portogente

Esta semana estava relendo um dos livros de Sociologia que mais gosto, A Corrosão do Caráter, de Richard Sennett, e lembrei a greve dos conferentes do Porto de Itajaí, que terminou na semana passada após mais de 20 dias de paralisação.

A greve gerou inúmeras opiniões da comunidade da região, a favor e contra a greve. Os comentários a favor ressaltavam a importância dos conferentes, do alto de seus salários em torno de 7 mil reais, para a economia da cidade, os contra falavam sobre a credibilidade do porto e também sobre a intransigência dos trabalhadores portuários, que, segundo tais opiniões, poderiam perder os privilégios de serem “operários sem patrões” e terem seu trabalho controlado pela APM após o vínculo empregatício.

Para quem não é ou não viveu entre os TPAs, é difícil entender os sentimentos destes trabalhadores diante do fim de um sistema quase centenário. Ser avulso é uma condição existente desde que porto é porto. A partir desta condição, construiu-se uma cultura do trabalho alicerçada em laços de solidariedade, os quais foram base para a constituição do caráter tanto destes trabalhadores quanto de seus filhos. A possibilidade do vínculo não está apenas na apreensão de se ter patrão, mas, principalmente, nas conseqüências desta condição nas relações sociais destes trabalhadores.

Para Sennett (2005, p.115), “a apreensão é uma ansiedade sobre o que pode acontecer; é criada num clima que enfatiza o risco constante, e aumenta quando as experiências passadas parecem não servir de guia para o presente”. Um passado, que neste caso, parece estar cada vez mais distante.

No capitalismo contemporâneo, caracterizado pela flexibilidade e efemeridade das relações, as lutas sociais, como esta dos conferentes de Itajaí, não são apenas por melhorias materiais, mas, principalmente, pela manutenção de valores como solidariedade e justiça, “lealdade e compromisso mútuo” (SENNETT, 2005, p.10), ou seja, pela não corrosão do caráter.

Referência

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: conseqüências pessoas do trabalho no novo capitalismo. 9 ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.

Tomo emprestada a expressão de Fernando Teixeira da Silva no livro Operários sem Patrões, publicado pela Editora da Unicamp em 2003.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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