CRISE GLOBAL | A terceira classe que se dane

Andrew Hill | Financial Times

Era produto de uma cultura capitalista que dava destaque para velocidade e porte cada vez maiores. Atendia estritamente às exigências normativas. Era tido como grande demais para soçobrar. Paralelos entre o Titanic e os bancos e corporações que naufragaram no decurso da crise financeira e econômica são numerosos.

Agora, um excelente livro — How To Survive the Titanic, de Frances Wilson — conduziu o foco de volta para J. Bruce Ismay, presidente da White Star Line, proprietária do navio. Ele sobreviveu depois de embarcar em uma das poucas embarcações salva-vidas que havia comprado para o Titanic, atraindo com isto opróbrio, desgraça e uma notoriedade inabalável como o vilão corporativo em filmes e livros posteriores. A história gera questionamentos sobre como a sociedade lida com líderes empresariais modernos que fracassam e o que pode ser feito para mitigar ou prevenir fracassos, antes de tudo.

Ninguém quer que capitães da indústria pereçam, mas a percepção de que eles deveriam afundar com o navio permanece. Christopher Ward, autor de outro livro recente sobre o Titanic, And the Band Played On, escreveu na revista The Spectator que, em um festival literário escocês, o público vibrou quando ele os convidou a comparar Ismay com Sir Fred Goodwin, que conduziu o Royal Bank of Scotland ao desastre mas escapou com a maior parte de sua aposentadoria. O banco Lehman Brothers se perdeu com Richard Fuld no comando, mas os aproximadamente US$ 480 milhões que ele recebeu enquanto estava no cargo seguem provocando ressentimento. Depois da perda do News of the World, Rupert e James Murdoch enfrentam pesadas críticas da opinião pública em razão do seu manejo do escândalo de haqueamento de telefones.

Catástrofes tendem a revelar quem de fato tem autoridade e quem sabe exercê-la com responsabilidade. Executivos estrangeiros que fugiram do Japão na esteira do terremoto e do acidente nuclear correram o risco de perder credibilidade, o emprego, ou ambos, segundo um novo estudo feito  pela Egon Zehnder International. Um gerente sênior disse: “Como líderes, não ‘escolhemos’ ficar ou partir. É responsabilidade nossa estar presentes para liderar nossas organizações. Foi para isto que fomos admitidos… Se eu deixar minha equipe sem promover a evacuação da organização como um todo, então perço minha credibilidade como líder. Se eu os abandonar, eu me demito.”

Por outro lado, o livro de Wilson não chega a exculpar Ismay, mas deixa realmente clara a confusão existente acerca de sua posição e poder. Ele viajava no Titanic nem como um passageiro comum nem propriamente como armador, vez que vendera a White Star para um consórcio norte-americano.  Os antigos chefes do Lehman e do RBS tinham mais em comum com “paparicado, festejado e exageradamente confiante” capitão do navio (com a grande diferença de que o comandante se afogou e sua reputação foi, em grande medida, poupada).

Não faz muito, o bisneto de Ismay disse à BBC que, em face da situação de seu bisavô, ele “não tinha o dever de morrer naquele navio”. Todavia, a evidência fornecida pelo relato carregado de nuances de Wilson indica que Ismay havia deixado de se desempenhar do dever de cuidar do navio e de seus passageiros. É certo que foi dele a palavra final sobre o número de embarcações salva-vidas. “O Titanic já tinha a bordo 10% a mais do que o exigido oficialmente pela Câmara Britânica de Comércio”, escreve Wilson, “e, de qualquer modo, para que encher desnecessariamente o convés de recreação se o navio era, ele mesmo, um salva-vidas?”

Antes da crise de crédito, diretores de conselhos de administração de bancos descuidadamente se faziam uma pergunta retórica parecida: para que sobrecarregar nosso negócio com exigências supercautelosas para concessão de empréstimos, se o próprio sistema é tido como seguro?

O desejo de atribuir culpa e buscar justiça retributiva depois que um desastre ocorre é humano. Isto ocorreu com os Murdochs, cozidos no parlamento britânico há algumas semanas, e também com o ex-executivo-chefe da BP, Tony Hayward, durante seu depoimento no congresso dos EUA, em 2010. Há quase um século, alimentou investigações públicas instantâneas sobre a perda do Titanic.

Tais oitivas não satisfazem porque ocorrem depois do fato consumado. Com demasiada frequência, capitães de indústria são trazidos a bordo com fanfarras e dispensados com constrangimento. Acionistas (e diretores, em empresas familiares) precisam trabalhar melhor para delimitar a autoridade dos líderes do negócio e definir os deveres deles antes que crises o atinjam.

Condições de emprego facilitadas, remuneração e aposentadorias excessivamente generosas, ênfase de menos nos riscos (operacionais e éticos) e de mais nas recompensas do trabalho — eis os equivalentes corporativos do salva-vidas em que Ismay embarcou. Enquanto salvaguardas como estas existirem em tal quantidade, o público terá de ter estômago para ver executivos navegando tranquilamente para longe do desastre que ajudou a criar.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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