Perto de terminar, dragagem do porto de Itajaí enfrenta dificuldades

Em março, a draga luxemburguesa Charles Darwin, de propriedade da companhia belga Jan de Nul, deu início à sua participação no aprofundamento do canal de acesso ao Complexo Portuário do Itajaí-Açu, em Santa Catarina. Até setembro, a profundidade mínima sairia dos 10,50 metros para 14 metros, dando fôlego ao desenvolvimento de um dos maiores portos movimentadores de contêiner do País.

No último dia 21, justo num momento em que a obra está quase completa — a informação que tenho é de que 95% dela foi executada –, a draga fundeou devido a ‘problemas técnicos’. Mas isto é apenas uma simplificação da verdade, como vim a descobrir.

No sábado (23), recebi alguns tuítes que me atraíram a atenção. Eis alguns deles:
@ITAJAIAGORA @lotsemann @andredomar @requiaopmdb Para seu conhecimento a Jan De Nul está deixando Itajai . Sua ngrande draga saindo.
daltonlg
July 23, 2011
@ITAJAIAGORA @lotsemann @andredomar @requiaopmdb Jan De Nul deixando e retirando sua draga do canal Itajai. Problemas técnicos projeto
daltonlg
July 23, 2011
@lotsemann @ITAJAIAGORA @andredomar @requiaopmdb Projeto apresentou-se com erros no sistema de batemetria.
daltonlg
July 23, 2011
@lotsemann @ITAJAIAGORA @andredomar @requiaopmdb Charles Darwim, construida em Bilbao, segundo tamanho do mundo, está indo para Rio Grande,
daltonlg
July 23, 2011
@lotsemann @ITAJAIAGORA @andredomar @requiaopmdb Jan Del Nu desistiu de Itjai erro técnico. Leônidas Cristino sabe e tomou providencias .
daltonlg
July 23, 2011

É importante notar que, ao tempo da recepção destes tuítes, eu não sabia que a draga havia fundeado.

A história que meu interlocutor contava em seus posts tinha, a meu ver, pontos soltos. Mas, como estava sendo divulgada de forma pública e eu não dispunha de meios para distinguir o certo do errado nas informações que me foram dadas, precisava apurar — e foi o que fiz.

Garimpando, levantei uma história cujo desenvolvimento tem 4 frentes.

(1) Desafio técnico

O objetivo inicial da Jan de Nul era concluir a obra até o dia 15 de julho — uma possível explicação para isto está relacionada à questão alfandegária, que abordarei a seguir. Estes planos foram frustrados por uma formação rochosa existente nas proximidades da entrada do Saco da Fazenda.

Por cerca de 20 dias, a draga enfrentou seu mais formidável adversário. Vários dos dentes utilizados para triturar pedras, no  valor de R$ 4 mil cada um, foram perdidos. Ao final. houve uma melhora de apenas 60 centímetros na profundidade. O progresso havia sido obtido a um custo demasiado alto.

Intrigados, amostras da laje foram enviadas a dois laboratórios, um em Santa Catarina e outro no Rio Grande do Sul. Ao final, descobriu-se que a dureza da pedra era superior à do granito, cujos principais componentes, feldspato e quartzo, tem dureza entre 6 e 7 na escala de Mohs.

Para poder terminar a dragagem, o plano é injetar cimento expansivo na laje. Com isso, os especialistas esperam fraturá-la, facilitando sua remoção pela draga. Ainda não se sabe quando isto será feito.

(2) A questão alfandegária

No último dia 16, expirou a validade da admissão temporária da draga. Como resultado, a obra foi interrompida. Para recomeçar, é preciso que a Receita Federal conceda nova admissão temporária ao equipamento. O problema, segundo a fonte, é que a Jan de Nul teria de pagar cerca de R$ 3,5 milhões de impostos por apenas mais um mês e meio de permanência, o que pareceu desproporcional aos belgas.

Para contornar a dificuldade com a Receita e realizar de forma mais acurada o acabamento da dragagem com uma melhor relação entre custo e benefício, a Jan de Nul decidiu deslocar a Charles Darwin de Itajaí para Rio Grande e trazer outra draga, de menor porte, para substituí-la.

Especulo que o tempo de validade da admissão temporária pode ter sido uma das causas para a velocidade com que as operações foram conduzidas — se a dragagem terminasse até o dia 15, nova admissão temporária seria dispensável.

(3) A atuação de Brasília

Na última quinta (21), dia do fundeio, a companhia belga foi advertida pela Secretaria Especial de Portos (SEP): a Charles Darwin não poderia deixar Itajaí até que a obra estivesse completa.

Na decisão de Brasília pesou o entendimento de que a draga, quinta maior do mundo, tinha sido parte central da vitória da Jan de Nul na licitação e que deixá-la partir teria repercussões técnicas, jurídicas e políticas inaceitáveis.

O pito da SEP forçou os belgas a reconsiderar a substituição da draga e a admissão temporária. Espera-se que a situação esteja normalizada ainda nesta semana.

(4) Problemas de sondagem

A narrativa do ‘problema técnico’ tem outro fundo de verdade. A Jan de Nul relatou a ocorrência de diversos erros cometidos nos levantamentos das profundidades pela empresa responsável pela fiscalização da dragagem. Alguns deles, de calibragem, tornaram imprestáveis os dados obtidos e levaram a companhia de dragagem a oferecer auxílio para a resolução do problema.

O aprofundamento do canal do Itajaí para 14 metros é uma aspiração da comunidade marítimo-portuária desde pelo menos 2009. Espero que os problemas identificados — contornáveis, ao que parece — não retardem significativamente a conclusão da obra.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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