AQUAVIA | Pirataria: a experiência de um cativo na Somália

Dipendra Rathore | The Guardian, 2011.06.11

Em abril do ano passado, eu estava praticando para me tornar um oficial marítimo num navio-tanque de produtos químicos de propriedade de uma companhia sediada em Mumbai. Na embarcação, havia 22 de nós — um amálgama de navegadores e maquinistas vindos da Índia; com 21 anos, eu era o mais jovem dos membros da tripulação.

O navio seguia da Índia para a Noruega, numa viagem que deveria levar 25 dias. No fim da tarde do quarto dia, estava tirando meu quarto de serviço quando um dos outros vigias anunciou, aos gritos, que podia ver um barco se aproximando. Nós estávamos navegando a 120 milhas náuticas (222 km) ao sul de Oman, numa vastidão erma de mar, e, a julgar pelo porte e aparência do barco, suspeitamos que fossem piratas.

Imediatamente, pedi ajuda a um navio da Marinha indiana pelo rádio — mas era tarde demais. Minutos depois, seis piratas abordaram-nos, armados com lançadores de granadas a foguete e rifles Kalashnikov, e abriram fogo contra nós. Foi absolutamente aterrorizante e caótico. Não nos restava senão render-nos.

Fomos conduzidos ao passadiço e forçados a deitar no piso. Em inglês claudicante, os piratas nos disseram que iriam pedir 15 milhões de libras esterlinas (R$ 39 milhões) da empresa para a qual trabalhávamos. Todos estávamos incrivelmente assustados. Ficamos deitados, em silêncio, até as primeiras horas da manhã seguinte, quando mais seis piratas subiram a bordo e nos informaram que navegaríamos rumo à Somália.

As condições a bordo eram indescritíveis. Estávamos confinados a um canto do passadiço. Com tudo fechado, o ambiente era sufocante. A higiene era deprimente — podíamos usar o banheiro, mas ele logo degenerou em uma bagunça fedorenta. Quase todos ficamos doentes. Éramos alimentados, mas apenas o bastante para a nossa sobrevivência — refeições prosaicas compostas de batatas e cebolas. Uma vez a cada duas semanas, deixavam-nos esticar as pernas no convés principal.

Em turnos, os piratas mantinham as armas apontadas para nós — jamais tivemos uma chance de escapar. E tampouco tivemos oportunidade de construir uma amizade com eles. Eles nos mantinham num estado de terror, espancavam-nos constantemente com canos de metal. Consegui evitar o pior da violência, mas vi meus colegas apanharem de vara e tomarem choques nos seus órgãos genitais. Um homem foi suspenso por cordas no mastro do navio,  e lá ficou por várias horas.  Mesmo quando não podia ver a tortura, podia ouvir os gritos. Não sei porque não sofri mais castigos; talvez eles tenham pensado que era muito jovem e sem importância. Alguns tripulantes mais antigos tentavam discutir com os piratas, mas eu fazia tudo para nunca os confrontar.

Toda manhã, acordava no piso de metal rígido imaginando se aquele seria o dia do meu fim. Todavia, conseguia me manter razoavelmente calmo. Tornei-me fatalista no tocante ao meu futuro — tudo o que podia fazer era esperar.

A intervalos de não mais que alguns dias, obrigavam-nos a ligar para a empresa e pedir pelas nossas vidas. Eles nos diriam que não havia nada que pudessem fazer, que queria levar nossos captores a reduzir o valor do resgate. Nos primeiros quatro meses, era-nos permitido ligar para nossas famílias uma vez ao mês, de modo a fazer com que elas pressionassem o armador. Essas conversas ao telefone eram demasiado difíceis: poucas palavras, e interrompiam-nos. Era de partir o coração.

Depois de muitos meses à espera do pagamento, os piratas colocaram nosso comandante em outra parte do navio, fazendo-nos pensar que havia sido morto. Eles queriam que implorássemos ainda mais. Começamos  a perder a esperança de sermos resgatados algum dia. Então, passados 238 dias, disseram-nos que o armador tinha afinal pago 5 milhões de libras esterlinas (R$ 13 milhões) de  resgate, e que um navio alemão fora enviado para nos buscar. Os piratas fugiram em outro barco.

A alegria de sermos levados pelos alemães para, entre piscares, encontrar o sol foi absoluta. Eu não chorei — estava como que anestesiado então — mas outros soluçavam.

Cheguei ao outro navio, e foi aí que me senti renascer. A primeira refeição, o primeiro banho, a primeira muda de roupas limpas — tudo me pareceu extraordinário. Seis dias depois, reencontrei minha família. Minha aparência era horrível, de tão magro que estava. Eles só ficaram onde estavam, chorando.

Depois de ter controlado meu humor no navio, tornei-me um homem muito zangado assim que cheguei em casa. No entanto, não me ofereceram terapia alguma. Eu simplesmente precisava superar. Isto não me afastou de uma vida a bordo de navios, porém. Atualmente, estou estudando para me qualificar mais e voltarei para o mar logo em seguida.

Não vou deixar que os piratas mudem minha carreira. Eles já me feriram o bastante.

Traduzido de http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2011/jun/11/kidnapped-by-somali-pirates-experience

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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