300 PALAVRAS | O futuro das ressacas

O encontro de duas notícias  numa daquelas esquinas movimentadas que todo cérebro tem me fez parar para pensar no amanhã. De um lado, leio o alerta de cientistas australianos: é cada vez mais provável que o nível médio do mar suba de 0,5 a 1,0 metro no decorrer deste século. De outro, há a ressaca que tem castigado vários trechos do litoral brasileiro entre o Rio de Janeiro e o Chuí desde a sexta, com estragos e imagens impressionantes.

Agora, imagine o que teria acontecido com o nível do mar apenas meio metro mais alto, algo que, a se crer nos estudiosos do outro lado do mundo, haverá de ocorrer durante a vida de minha filha e dos meus sobrinhos. Imagine, e depois me diga se você acha que estaremos prontos, material e psicologicamente, para este futuro que uma dia pensamos ser coisa de ficção científica ou de Hollywood.

Mudamos o mundo, mas ainda não mudamos a forma de pensar o mundo. Seguimos, muitos, fiéis ao mito do progresso material infinito, acreditando que a nossa civilização conseguirá fugir ao destino de todas as outras civilizações conhecidas — o decaimento, gradual ou estrepitoso. E não parece que o tempo está a nosso favor.

Para alterar os rumos deste mundo, precisamos ter a coragem de pensar, a tempo, “tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas e se isto der errado?”. Só que a época não tem paciência com quem faz estas perguntas; pespega aos seus autores a pecha de pessimistas enquanto ruma segura e alegremente rumo ao ocaso.

Se queremos evitar uma grande ressaca no futuro, precisamos abandonar as certezas, antes que as certezas nos abandonem.

 

 

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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