AQUAVIA | Da qualidade da praticagem e dos marítimos

Do leitor identificado como Felipe, recebo um comentário a respeito do post “Prático a bordo: precisa?”.

Reproduzo-o aqui como foi escrito, inicialmente sem minha réplica, para que você possa fazer a sua própria leitura:

A qualidade dos tripulantes tem diminuido em que sentido?

Ingles sofrivel?

Relembra-se que o pratico tem funcao meramente de assessoria. O estresse sobre a equipe de navegacao continua a mesma, diante de praticos que se sentam e ficam conversando no passadico, outros que sobem com o laptop prontamente conectado ao GPS e apenas repetem os conselhos dos softwares, ou a maioria que nao tem nada a fazer dentro de um rebocador offshore alheia ao uso do sistema de Posicionamento Dinamico.

Agora que você teve tempo de ler e talvez reler, ofereço minhas considerações a respeito. E a exemplo do que fiz no post E-mail aberto ao José Vital, reapresentarei as frases do Felipe em azul e escreverei a respeito delas em vermelho.

Ao trabalho, pois!

A qualidade dos tripulantes tem diminuido em que sentido?

Em todo o mundo, a qualidade dos tripulantes, particularmente a dos oficiais, tem sido causa de grande preocupação. O problema central é que as promoções ocorrem sem que os oficiais promovidos tenham suficiente experiência para lidar com a carga de trabalho e com as pressões comerciais, segundo Arne Birkeland, chefe de operações da Norwegian Hull. Em outros termos, os oficiais estão mais ‘doces’ hoje do que há dez anos atrás.

Inglês sofrível?

Na minha experiência, sim, em muitos casos. Tripulantes vindos de países da antiga União Soviética costumam me oferecer dificuldade — já vi pelo menos um acidente por causa de problemas de comunicação e, por conta disso, aprendi o bastante para poder governar um navio em russo.

Nenhuma outra nacionalidade tem mais problemas com o inglês do que o chinês, contudo. A razão para isso é que a comunicação em chinês requer uma forma de pensar muito diversa da necessária para a comunicação em inglês, como demonstram esses exemplos de chinglês: http://www.dailymail.co.uk/news/article-497544/Chinglish-Hilarious-examples-signs-lost-translation.html.

Relembra-se que o pratico tem funcao meramente de assessoria.

A praticagem é um serviço de assessoria, sim, no sentido de que  presta orientação ao comandante do navio no desempenho da navegação em zonas de águas restritas — entendimento que encontra apoio na letra “d” do item 0220 da NORMAM-12. Entretanto, ela é também obrigatória, em razão do interesse público, e só isso já faz do prático mais do que um “mero” assessor. Adicione a isso a qualificação de “serviço essencial” dada à praticagem pela Lei 9.537/1997 e fica claro que não estamos a falar de uma assessoria “qualquer”.

O estresse sobre a equipe de navegacao continua a mesma, diante de praticos que se sentam e ficam conversando no passadico, outros que sobem com o laptop prontamente conectado ao GPS e apenas repetem os conselhos dos softwares, ou a maioria que nao tem nada a fazer dentro de um rebocador offshore alheia ao uso do sistema de Posicionamento Dinamico.

Em 2004, o jornalista inglês Michael Grey referiu-se aos práticos como uma rede de segurança essencial para compensar o frequente sub-dimensionamento de pessoal a bordo em um momento no qual as exigências impostas sobre uma tripulação provavelmente atingem seu ápice. No processo de orientação ao comandante, isso se dá de dois modos: pela execução da manobra, ou pelo monitoramento das ações do comandante enquanto este realiza a manobra. Em ambos os casos, se desempenha seu ofício conforme esperado, ele compartilha sua expertise com o passadiço e, assim, torna mais prontas e pró-ativas as ações necessárias para o trânsito eficiente e seguro do navio.

Os casos que você descreve de fato ocorrem e são, em princípio, exemplos de situações nas quais há um desvio do padrão de qualidade no trabalho do prático.  Práticos que conversam sem parar são uma distração para todos; práticos que confiam demasiadamente em auxílios à navegação tem sua consciência da situação do navio reduzida; práticos que se alheiam da manobra em embarcações dotadas de sistemas de posicionamento dinâmico não entendem corretamente nem os limites do sistema nem o papel que devem ter a bordo. Todavia, isto não invalida os inúmeros outros casos — a maioria, eu arrisco dizer — nos quais ele faz o que dele se espera, e até mais.

Por ora é isso, pessoal. Até mais!

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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