CIÊNCIA | Ambiente desordenado pode favorecer discriminação

Um estudo publicado na revista Science mostra que arredores caóticos podem deixar as pessoas mais propensas a estereotipar outras.

Os cientistas sociais Diederik Stapel e Siegwart Lindenberg, da Universidade de Tilburg, na Holanda, pediram a indivíduos em ambientes turbulentos ou ordenados — neste caso, uma rua e uma estação de trem — que respondessem a questionários destinados a testar o juízo delas sobre certos grupos sociais.  Eles identificaram diferenças pequenas, mas significativas e sistemáticas nas respostas: houve mais estereotipagem nos ambientes mais caóticos do que nos mais estruturados.

Com base nos resultados obtidos, os pesquisadores sugerem que as autoridades locais podem combater a discriminação social identificando e removendo sinais de desordem e abandono em ambientes públicos.

O psicólogo David Schneider, da universidade norte-americana de Rice, é especialista em estereótipos. Para ele, o estudo é um excelente trabalho que não apenas fornece evidência de uma possível causa ambiental de importância, mas também dá sustento a uma potencial explicação teórica de grande expressão para algumas formas de preconceito.

Tolerância reduzida

Em um dos seus experimentos, Stapel and Lindenberg foram à movimentada estação ferroviária de Utrecht e convidaram transeuntes a responder um questionário, recebendo como agradecimento uma barra de chocolate ou uma maçã.Em alguns dos dias, os estudiosos tiraram proveito da sujeira da estação, causada por uma greve dos trabalhadores dos serviços gerais, para criar seu ambiente bagunçado.

Os participantes foram chamados a avaliar até que ponto certos grupos sociais — muçulmanos, homossexuais e holandeses — correspondiam aos estereótipos positivos ou negativos, e quais características não tinham conexão com os rótulos. Por exemplo, os estereótipos ‘positivos’ associados a homossexuais foram “criativos” e “gentis”, os ‘negativos’ foram “estranhos” e “femininos” e os ‘neutros’, “impacientes” e “inteligentes”.

Além de investigar as respostas conscientes, a experiência também sondou as reações inconscientes a “raças”. Todos os participantes eram brancos mas, ao se sentarem, uma das cadeiras no fim da fila já estava tomada por um holandês branco ou negro. Na situação desorganizada, as pessoas sentavam, em média, mais longe do negro do que do branco, ao passo que esta diferença era estatisticamente irrelevante no contexto organizado.

Para eliminar os efeitos provocados por diferenças na limpeza do local sem alterar a desordem, os pesquisadores realizaram outro experimento. Nele, os potenciais participantes eram abordados em uma das ruas de uma rica cidade holandesa. Em alguns casos, a rua estava arrumada, enquanto em outros a rua foi bagunçada através da remoção de pedaços do pavimento e da adição de um carro mal-estacionado e de uma bicicleta ‘abandonada’.  Mais uma vez, a confusão facilitou a rotulagem.

Stapel and Lindenberg afirmam que a estereotipagem pode ser uma estratégia da mente para compensar a confusão, “um modo de lidar com o caos, um dispositivo de limpeza mental” que classifica outras pessoas em categorias nítidas e pré-definidas.

Ordem e progresso?

Robert Sampson, sociologista da Universidade de Harvard, considera o estudo “inteligente e bem feito”, mas é cauteloso quanto à interpretação dos resultados.

“A desordem não é necessariamente caótica, e está sujeita a diversos significados sociais em condições perenes ou livres de manipulação. Há considerável variação subjetiva dentro do mesmo ambiente residencial a respeito da avaliação da desordem — o contexto social tem importância.”

David Schneider concorda que as implicações do estudo para as políticas públicas ainda não estão claras. Para ele, uma das questões que precisa de resposta é quanto à persistência dos efeitos observados. “Há a possibilidade de que as pessoas possam se adaptar rapidamente à desordem. Assim, eu teria muita relutância em concluir que pessoas que vivem em áreas sujas e desorganizadas sofrem mais preconceitos em razão disso.”

Stapel reconhece o problema. “Pessoas que vivem constantemente na bagunça se acostumam com ela e não exibirão os efeitos que identificamos. Desordem, em nossa definição, é qualquer coisa que seja inesperada.”

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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