SOS Serra | A tragédia maior

Em meio a tanta desgraça e sofrimento, a imprensa nacional, felizmente, começa a dar voz a muitos especialistas que estão fazendo exatamente o que devem fazer, colocando o dedo na ferida. Em coro, eles apontam para a tragédia maior: a falta de ações efetivas de prevenção e o descontrole histórico e quase total das administrações públicas quanto ao uso e ocupação dos espaços nas nossas cidades. Comparando com países onde a prevenção funciona de fato, chuvas bem maiores causaram pouquíssimas mortes.

 

Apesar de honrosos esforços isolados, as ações preventivas governamentais continuam em geral pífias, quando não totalmente equivocadas. Em Blumenau, houve significativos e respeitáveis avanços, mas ainda há muito que fazer para a convivência eficaz com as catástrofes naturais. O aterro irregular em APP de margem de rio, nos fundos do Museu Fritz Müller, ainda não foi retirado. Ocupações irregulares ainda acontecem mesmo em áreas de risco. Terraplanagens de necessidade discutível continuam sendo autorizadas pela Faema e aterros em baixadas proliferam em todos os lugares, gerando potenciais pontos de desequilíbrio e agravamento no caso de chuvas mais intensas.

Em Guabiruba, Gaspar e Brusque, por exemplo, loteamentos e escavações em encostas íngremes são visíveis em vários lugares, alguns ostentando placa de autorização da Fatma, o órgão estadual do Meio Ambiente. Ações de respeito e adaptação ao equilíbrio ambiental, zero. Obras na estrada Guabiruba-Gaspar Alto-Garcia, feitas no pós-tragédia de 2008, causaram monstruosos impactos ambientais, um exemplo didático de montagem de bomba-relógio geoambiental, que pode ser detonada a qualquer momento nos próximos anos. Há poucos dias em Gaspar, uma “Casa do Agricultor” edificada sobre galeria pluvial foi denunciada pela população local, sinal de que alguma consciência popular já existe a respeito.

Em Luís Alves, um dos municípios mais destroçados em 2008, continua a prática de vulneráveis escavações de encostas com decapeamento do solo. Uma delas, enorme, chama a atenção, visível do Centro da cidade. Trata-se de um loteamento, envolvendo gigantesca movimentação de terra e aterros em baixadas. Mesmo sob chuva fraca, espessa camada de lama desce do local e chega ao Rio Luís Alves. Numa esquina ali perto, uma placa conduz a uma “Gruta”. No local, há uma grande construção em forma de galpão, aparentemente destinada a festas religiosas, erigida sobre córrego que desce do morro íngreme. Uma ampliação dessa construção (estaria embargada? será demolida?) avança sobre outro ribeirão, que cai em cachoeira logo abaixo. No que sobrou de margem tem lixo. A intenção de ali louvar o Criador se transformou em ofensa à sua obra. Mas Ele, na sua infinita bondade, não nos castigará. Nós é que, na nossa infinita ignorância ambiental, nos castigamos.

 

Fluminenses, aprendam a evitar estes erros, por amor aos vivos e respeito aos mortos…

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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