OPINIÃO | Em Prates limpos

O vídeo abaixo é do Jornal do Almoço de hoje, transmitido pela RBS TV de Santa Catarina. Por favor, veja-o antes de continuar a leitura.


Antes de sair dando minha opinião, devo fazer três observações preliminares.

Primeiramente, vejo e leio Luiz Carlos Prates há algum tempo e divirjo de boa parte da visão de mundo dele, que me parece carente de resiliência perante as diferenças, mas tem mérito em defender o valor da educação e da civilidade, por exemplo.

Em segundo lugar, esperar de Prates o “politicamente correto” é esperar da laranjeira que dê maças. Basta ler o blog dele para ter melhor ideia do que digo.

Finalmente, penso que, em casos como esses, ajuda lembrar o ensino do Novo Testamento: “Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (Tiago 1:19).

Feita essa digressão, passo à análise.

Prates enxerga na “popularização do automóvel” uma causa do tráfego intenso no trecho catarinense da BR-101 neste feriado. Examine-se o caso sem paixão ou ideologia e será possível perceber que há razão neste ponto.

Nunca antes na história deste país houve tanto carro rodando, graças ao aumento da renda e ao crédito facilitado, que incentiva o consumo e repercute positivamente no crescimento do PIB. Entretanto, é preciso considerar que as estradas, ruas e avenidas continuam fundamentalmente as mesmas, não foram feitas para fazer fluir tanto veículo. E o resultado é similar ao de despejar água demais em um funil pequeno.

É no contexto da situação descrita no parágrafo precedente que o jornalista diz: “Hoje, qualquer miserável tem um carro.” Por isso, discordo de Paulo Henrique Amorim, para quem isto é manifestação de “ódio contra pobre”. A crítica de Prates me parece dirigida a uma escolha em favor da aquisição de bens materiais em detrimento de qualidade de vida, como indica o seu discurso posterior.

Outra crítica que li a respeito deu a entender que o comentarista gaúcho teria usado o termo “desgraçado” em relação aos “pobres que ascenderam à classe C”. Esta observação não acha guarida no que Prates diz — volte-se a 1min 28s de vídeo, e será possível perceber que ele fala do que em alemão se chama Schadenfreunds, “amigos da desgraça alheia”, cuja curiosidade pelo desastre levou-os a colocar em risco a própria vida.

Em resumo, posso não concordar com a forma como Prates se expressa, mas não vislumbro, no momento, preconceito contra as classes mais baixas da sociedade. Vejo, sim, a precipitação daqueles que veem demônio em tudo que é chifre.

Outras opiniões

http://www.conversaafiada.com.br/video/2010/11/16/video-assustador-globo-de-sc-tem-odio-de-pobre/

http://mariafro.com.br/wordpress/?p=21698

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar

11 responses to “OPINIÃO | Em Prates limpos”

  1. Rômulo Mafra says :

    Pois o ódio do Prates está, exatamente, aí. Ele reclamava antes? Não. Por que? Porque quem “podia” é que usufruia das benesses de ter um carro. Hoje não, qualquer um pode, e então, ele reclama, pois, como aquele texto irônico de um rico reclamando do aeroporto lotado de pobres, as ruas estão lotadas de “pobres andando de carro”, atrapalhando os outroras senhores das ruas. Esta é uma leitura bem possível, vinda do Prates, e não duvido que seja a mais correta, apesar que tua leitura também é possível. Mas não confio que seja exatamente o que ele pensa não. 😉

    • Alexandre da Rocha says :

      A leitura que fiz não tem a menor pretensão de convencer. Ela deriva do modelo mental que tenho do mundo, necessariamente limitado por uma miríade de fatores.
      A ideia de publicar o que pensei é justamente a de colocar a minha visão dos fatos em contato com outras visões, como a sua, que respeito e entendo.
      Vou observar o Prates com mais atenção a partir de agora…

  2. Fellipe says :

    Привет Лоцман. Gostei da sua critica. Na minha opinião, O Sr. Prates merece e sempre mereceu ate agora meu respeito, pois vejo-o como um homem com ideais fortes e audaciosos e nao elitistas. Talvez, para muitas pessoas que nao o acompanham determinado tempo possa parecer a imagem de tal. Deprimente e ver o Paulo Henrique Amorim e outros colocando lenha na fogueira sem nenhum argumento ou opinião construtiva.

  3. Odete says :

    Desculpe, mas não concordo com a sua avaliação. Já assisti dezenas de comentários deste senhor,e, já senti náuseas com as suas colocações por diversas vezes. Ele é elitista, sim. É preconceituoso, e tem idéias de direita. Fiquei horrorizada com um comentário dele meses atrás em que fazia o elogio da ditadura. Sempre vociferou contra o Lula e o PT. Sempre foi contra a mobilização popular e sindical. É um “leitor de livros” de uma única visão. Não o considero culto. Acho que tem uma idéia deturpada do mundo e da sociedade atual. Basta ver o chavão que usa quando brande contra alguém que tenha praticado algum ilícito: “ah…..na minha delegacia”!!!!!Urgh…….tenho horror deste tipo de gente destemperada.

    • Fellipe says :

      Ola Odete, desculpe-me, mas tambem nao concordo com sua opiniao. Sinceramente, tambem nao gosto de algumas chamadas que ele faz contra o governo Lula e PT. Creio que vai de cada ouvinte julgar se aquilo dito tem coerencia ou nao. Existem coisas boas e ruins no nosso atual governo. Outro fator, sobre a delegacia que voce disse como chavao, veja bem, falta educacao no Brasil. Existem pilantras marginalizados, “desgracados” ou como voce queira os chamar que estao rondando sua casa para lhe assaltar e roubar seus bens a todo momento. O que falta para uma pessoa dessas? Na minha opiniao, merece primeiramente ir para a famosa delegacia do Prates e minha tambem, pois assino embaixo. Tem que levar pra aprender porque cada ser humano tem seu livre arbitrio para vencer seus obstaculos dignamente, seja por suor de trabalho ou estudo, mesmo nosso pais nao tendo as devidas oportunidades. Para os fora da lei precisa sim de punição pesada, ou seja, como dizem na minha terra: afofar o porrete no vagabundo! Caso contrario, diga-me uma solucao mais efetiva para casos – ilicitos – como voce mesmo disse?

      • Rômulo Mafra says :

        Ah, claro, ele vai aprender na “delegacia do Prates”. Sim, conhecemos bem este tipo de lugar. Lá é onde as pessoas “aprendem”, né? Saem de lá melhores, não é mesmo? Depois de levarem uma surra, passarem pelo pau-de-arara, tomar umas boas doses de afogamentos, choques nos testículos, um estuprozinho básico, estas pessoas vão viver em comunhão com os outros na sociedade, não importando a condição nem o meio em que vivem, ceeeeerto?
        Erradíssimo.

      • Alexandre da Rocha says :

        Toda ação humana é a soma de sua natureza com as circunstâncias em que ele vive.

        Não pretendo dizer com isso que não temos responsabilidade pelos nossos atos. O que quero dizer é o livre-arbítrio não deve ser entendido fora das condições em que o homem o exerce, nem das oportunidades que ele tem de desenvolvê-lo.

        O crime tem, não raro, caráter de subproduto de nosso sistema socioeconômico, orientado a gerar crescimento econômico mais que progresso humano. Há mais sabedoria do que parece na comparação entre nossas prisões e lixeiras, e entre presos e lixo.

        Só que este “lixo” é responsabilidade nossa também. E é preciso combater as causas de seu surgimento.

    • Alexandre da Rocha says :

      Odete,

      Não é preciso desculpar-se se não erraste.

      Em primeiro lugar, note, por favor, que não me detive a analisar a pessoa, mas o que ele disse. E, no caso em questão, não consigo extrair da fala dele nada que sustente claramente a tese de “ódio contra pobre”. Outra coisa é a questão da crítica ao governo Lula, por inequívoca.

      Há manifestações do Prates de que discordo profundamente. Um exemplo é um post dele de 07.11:

      “Censura

      Censura, sim. Ligo o rádio e um tapado cantava uma música que falava em “dar uma fugidinha com você”, “eu fugi com você”. Diga isso rápido… É malandragem barata, vulgar, tem que proibir o estúpido de cantar e dar um gancho no programador da rádio. Que eles cantem para as “maninhas”.”

      Pode até ser vulgar e o mais. Mas não posso dar guarida à ideia de “proibir o estúpido de cantar e dar um gancho no programador da rádio”. Qualquer pretensão de distorcer o fluxo de informação é perigosa, e este me parece o caso.

      Não pretendi, pois, defendê-lo. Não tenho como julgar a pessoa, porque pouco sei dela. Mas posso partilhar com vocês o que penso de uma ação dele, e foi o que procurei fazer.

  4. Fellipe says :

    O Sr. Rômulo Mafra se manifesta contra minha opiniao. Otimo, acho muito oportuno a sua resposta, mas me cita outras medidas efetivas para tal fato. Veja, eu disse: “…merece primeiramente ir…” e no final do comentario ha uma pergunta. Geralmente, so sabem criticar e nao propor ideias de combate. Fala-se em alguma punicao aos marginais e interpretam como algo inibidor da liberdade e direito humano. E preciso haver ordem e respeito com a nossa policia, pois como esta hoje, sera dificil sem uma reforma na educacao a comecar do berco. Ou minha concepcao seja, atualmente, elistista ou ditadora como queiram interpretar.

    • Rômulo Mafra says :

      Ainda precisa-se dizer quais as saídas? Não estamos vivenciando elas? Simples, INVESTIMENTO SOCIAL, CULTURAL E EM SAÚDE (creio que a Saúde é que está faltando um pouco mais de empenho, mas, estamos a caminho). Fora disso, não há milagres para os nossos problemas sociais. E um deles, com certeza não é a “delegacia do prates”, onde, sabemos por experiência em nossa história como seres humanos, só piorarão os que sairão de lá. Ah, sim, darão um alívio imediato em que provoca a dor no marginal (que vive à margem da sociedade). Mas, e depois? Não vira (maioria dos casos) o abusado na infância um pedófilo? Não vira um pai agressivo um filho que é agredido pelos pais?

  5. Anônimo says :

    Sobre o problema a qual o Sr. Prates comentou, penso que antes de oferecer o crédito à população, o Departamento de planejamento deveria (já que irá dar dinheiro para compra de veículos) inicialmente ampliar ou rever a malha rodoviaria, tendo em vista que o fluxo irá aumentar. Ele se expressa de uma maneira que possa parecer um tanto “grosseira”, mas por ja ter visto várias vezes seus comentarios, acredito que no dia a dia, esse realmente seja ele… Uma pessoa que tem uma “casca” em volta mas seu interior seja outra coisa, como outras pessoas que eu conheço.

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