AQUAVIA | ‘Navio da Esperança’ se arrisca para atender ribeirinhos

Marinheiros vencem a região conhecida como estreitos, no Pará, onde rios são sinuosos e rasos

XANDU ALVES
ENVIADO ESPECIAL À AMAZÔNIA

Para alcançar as comunidades de Santa Luzia, Nova Filadélfia e Fé em Deus, no Pará, o navio assistência hospitalar Carlos Chagas, o Navio da Esperança, entrou no trecho mais perigoso da viagem entre Manaus e Belém, acompanhada pelo O VALE.

Conhecido como estreitos, o trajeto entre as cidades paraenses de Afuá e Breves, perto da Ilha de Marajó, concentra os rios mais estreitos, sinuosos e de pouca profundidade da missão. O trajeto inclui rios como Canal de Santana, Afuá, Anajás e Aramã.

“Exige-se uma navegação que chamamos de estimada, levando em conta as variáveis de velocidade e tempo”, explica o tenente Leonardo Abreu de Brito, 28 anos, encarregado das divisões de Apoio e Operações do navio. “De três em três minutos, marcamos os dados na carta náutica e observamos os ‘braços’ do rio, ou seja, os rios adjacentes, para não errarmos a trajetória.”

Nas margens dos rios, surgem casas de madeira, pequenas comunidades, barcos modestos e até igrejas. As pessoas moram nas margens em casas isoladas. Todos têm pelo menos uma canoa. As famílias se juntam na frente das casas e acenam à passagem do Navio da Esperança.

Santa Luiza.
Apenas 23 pessoas moram na comunidade Santa Luzia, cujas casas são erguidas por palafitas. Os profissionais de saúde da Marinha chegaram ao vilarejo de helicóptero, que precisou esperar a passagem de uma manada de búfalos para pousar. Todo o voo é feito sobre a densa floresta amazônica. Lá do alto vê-se o imenso ‘cobertor’ verde da mata que some na linha do horizonte, cortado apenas por rios sinuosos. É impressionante a grandeza e a beleza da floresta.

O atendimento foi organizado em um espaço comunitário. Além dele, o vilarejo possui seis casas e um capela, administrada por Roselina Biscaia de Oliveira, 51 anos, que celebra a missa aos domingos com o filho Gabriel Oliveira, 33 anos. “Buscamos as hóstias em Afuá para durar seis meses”, conta.

Fé na ribeira.
A religião também é predominante nas duas outras comunidades atendidas pela Marinha: Nova Filadélfia e Fé em Deus. A primeira foi criada por evangélicos e a segunda, por católicos.

Para alcançá-las, a equipe médica do Navio da Esperança conseguiu uma carona no barco da Secretaria de Saúde de Anajás, que visita as comunidades ribeirinhas para fazer o controle da malária.

Em Nova Filadélfia, as casas se espalham pelas margens do rio Anajás. Roupas estendidas no varal dão o toque colorido à paisagem. Um solitário telefone público azul completa o cenário.

O pastor Naum Abreu da Silva, 31 anos, elogiou o trabalho da Marinha e disse que a comunidade enfrenta muitos problemas de organização. Ele vive com a esposa e dois filhos com o salário que recebe da Assembleia de Deus. A meta é tornar-se presidente do próprio templo. “Nosso pastor consegue tirar até R$ 5.000 por mês com o dízimo pago pelo fieis”, revelou.

Os jovens da escola municipal “Fé em Deus” sonham em conseguir estudar e sair do vilarejo. E eles têm metas audaciosas. “Quero ser desembargadora”, diz Elciane Lobato, 14 anos, sem saber exatamente o que faz um desembargador. “Vou tentar ser advogada”, diz Rosilene Souza, 14 anos. Já a jovem mãe Renilde Silva, 19 anos, só queria ter uma TV.

Fonte: http://www.ovale.com.br/cmlink/o-vale/brasil/navegac-o-arriscada-para-atender-ribeirinhos-1.48440

 

Anúncios

Tags:,

About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
%d blogueiros gostam disto: