OPINIÃO | Privatização sempre, estatal nunca

Samir Keedi | dci.com.br | 2010.10.20

Não existe o que alguns chamam de empresas do povo. O que existe é empresa do governo, em geral incompetente.

Na campanha do 2º turno das eleições presidenciais no Brasil, em 2006, o candidato da situação, ainda presidente, tentou, e conseguiu, destruir o candidato da oposição, utilizando-se do jogo falso da privatização. Colar no candidato que empresas estatais sofreriam privatização foi um jogo estranho, já que este jamais tinha dito algo sobre aquilo. E ele, erroneamente, passou a negar sistematicamente o fato. Colocado na parede, sem reação adequada, claro, perdeu a eleição de forma bisonha. E com menos votos que no primeiro turno.

Dizemos erroneamente porque quem conhece um mínimo deeconomia, e acompanhou as privatizações realizadas no Brasil nos últimos anos, pode ver, com clareza, o acerto da política de privatização. Esperamos que o candidato atual da oposição aja com mais inteligência e faça a diferença, exaltando a privatização, sim.

Veja-se, por exemplo, a privatização das siderúrgicas brasileiras, entre elas a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que era uma empresa inviável e que apresentava sistemáticos prejuízos. Obrigava o governo a colocar, numa empresa ruim, dinheiro bom do contribuinte. Além do conhecido “cabide de emprego” que essa empresa representava. Como todas as estatais.

Todas as estatais, salvo raras exceções, como nos casos da Petrobras e da Vale do Rio Doce, apresentavam essa situação melancólica e vergonhosa ao País. Uma vez privatizada, a CSN transformou-se numa empresa que gera lucro, emprego decente, etc. O governo, ao invés de colocar dinheiro nela, passou, obviamente, a receber impostos sobre seus lucros.

Uma “pequena” diferença que só não vê quem não tem a boa intenção para tal. Em especial aqueles que vivem dizendo que a empresa estatal é do povo. Que povo? Alguém já viu o povo entrar nela, tirar algo para si, poder usar, receber dinheiro dela, etc.? Obviamente que essa conversa é para boi dormir, não existe empresa do povo. A menos que o povo compre suas ações, se estiverem em bolsa e, aí sim, serão seus donos e receberão por isso. O que existe é empresa do governo, em geral incompetente, e sabemos que no Brasil, infelizmente, o governo não costuma representar o povo. E ainda dizem que vivemos numa democracia. Para quem?

Vide o caso da Vale, que, uma vez privatizada, em nada lembra a Vale estatal, e agora internacional. Vide as estradas brasileiras privatizadas, em que se consegue andar, com chances de chegar e voltar vivo, além de economizar o seu carro, com manutenção diferenciada em relação às estradas não-privatizadas. Temos os problemas dos pedágios, mas é isso que tem quer ser revisto, não a privatização.

Vide a situação dos portos brasileiros e das ferrovias, em que as suas operações foram privatizadas. Portos incompetentes, com operações de 5/8 contêineres-padrão por hora ao custo de US$ 500 a US$600 cada. Que foram substituídos por operações médias de 40 a 50 unidades por hora, chegando a 120, ao custo variável de cerca de 60% a 70% menor. Ainda não está bom, mas é bem melhor que o Estado. As ferrovias saíram do prejuízo, e de vergonhosos 18% de participação na nossa matriz de transporte, para cerca de 26%, por enquanto. Além disso, estão dando lucro, gerando empregos, ressuscitando a indústria ferroviária no País e, importantíssimo, pagando impostos. Pena que o governo não o reinvista.

E o que dizer da provatização da telefonia, em que um telefone custava uma fortuna, era colocado como bem na declaração do imposto de renda, e levava anos para ser instalado? E hoje como é? Mas deixaremos isso ao caro leitor para reflexão.

Poder-se-iam transportar esses exemplos para todas as empresas estatais privatizadas que, segundo jornais das décadas de 70 e 80, chegavam a cerca de 500. Um absurdo, considerando que o Estado não tem competência para produzir e gerir empresas. Aliás, nem sua própria estrutura.

É claro que a privatização nem sempre é a maravilha que poderia ser. Existem erros, e muitos. Mas, o que deve ser consertado são os erros cometidos em algumas privatizações, e não suspender o processo e todos seus incontestáveis benefícios. E quem não foi beneficiado que atire a primeira pedra. Não nos referimos aos ressentidos de plantão, mas aos que sabem avaliar. Não àqueles que estão exultantes com a recriação de 11 estatais. Até o seguro está na mira. Uma piada de mau gosto, que é exclusividade do governo.

Vide o caso das rodovias, que é bem emblemático. A sua privatização é um acerto. Quem prefere as estradas ruins do governo? Quem já andou nas suas estradas conhece-as bem e sabe o que podem fazer a seus veículos, e os perigos que encerram, sendo uma viagem comum uma verdadeira aventura, de “chegamos se for possível”. No entanto, o problema verificado é a permissão para a multiplicação de pedágios, e com valores altos, muitas vezes desnecessários.

Então, o problema não é a privatização, mas a forma adotada e os interesses escusos escamoteados que as seguiram. Esses sim, têm de ser eliminados, devendo as privatizações seguir os interesses nacionais e que atendam à população, ou melhor, a ambas as partes. Quando a questão se resume a uns poucos beneficiados, em detrimento de uma sociedade inteira, isso sim deve ser combatido. E a culpa, claro, é da própria população que deixa o governo ser seu dono, patrão, mudando a sua condição de empregado do povo.

Mas, a privatização é o caminho correto, deixando-se a produção para quem é do ramo, o qual, certamente, não é o governo, de nenhuma esfera.

Assim, seria bom retornarmos, não só em tempos de eleição, mas sempre, para os bons hábitos e para a divisão do trabalho, esta já preconizada por Adam Smith, considerado o pai da economia, no longínquo final do século XVIII. Tanto tempo já se passou, e parece que ainda não aprendemos. Que tal seguirmos exemplos de economias altamente desenvolvidas, com cada macaco no seu galho, sem tartarugas na copa das árvores, e o governo tentando fazer apenas aquilo para o qual foi criado?

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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