AQUAVIA | “Marinhês”, a língua do homem do mar

Originalmente publicado por Ricardo Mingordo em BlogMercante, 2010/09/27

O linguajar do homem do mar é tão rico quanto curioso. Um relato de ocorrência a bordo ou uma conversa entre dois lobos-do-mar pode ser incompreensível, e até mesmo estranho, para quem não conhece o vocabulário técnico e as gírias de bordo:

Ao virar o bolinete para safar a posição do mordente e gurnir bem o ferro de boreste, até encostar as patas nas bordas do escovém, o faroleiro esqueceu de desengrazar a saia do guincho. Uma espia solteira que cobria várias voltas ali, tesou demais e partiu, indo atingir uma balroa no bico de proa. Além disso, o vento fez voar o caxangá do marinheiro, mas por sorte, ele estava a barlavento e o caxangá bateu na borda-falsa e aterrisou no convés do castelo, junto ao trincaniz. Correndo para recuperar o caxangá, o faroleiro esbarrou em um frade e derrubou uma retinida que ali se encontrava aduchada. Acabou pisando na pinha e só não caiu porque se agarrou na adriça do pau-do-jeque. Antes encostado num peloro, o Comandante se debruçou no talabardão e viu toda a cena. Entrou na casa do leme e avisou pelo boca-de-ferro: “Mestre, o farol tá na onça. Mande um moço ajudá-lo na faina. E pegue outra balroa, aquela guardada na proa, em cima da buçarda.”

Até mesmo para profissionais do mar, algumas das palavras acima podem soar pouco usuais, pois a grande maioria hoje não embarca em tradicionais cargueiros, e com a crescente especialização de navios, os profissionais se deparam com barcos que mais lembram grandes centros de controle, com passadiços lotados de telas de computador, rendições por helicóptero e quase que jamais atracam em porto algum, passando anos a fio estacionados em locações offshore.

A lista é imensa, com milhares de vocábulos e expressões, relativas a estabilidade, marinharia, navegação e vários outros assuntos de bordo, compondo um riquíssimo idioma, complementado ainda por centenas de gírias, cujo estudo é fonte de grande satisfação. Relacionamos aqui apenas as gírias e expressões mais comuns:

À garra (ou de agarra) – algo largado (materiais deixados fora do lugar).

A pé de galo: alerta, de plantão.

Aperto – rigidez, ser mais rígido.

Baixar à terra – sair do navio.

Bisonho: alguém que vive errando frequentemente.

Bizu: Conselho, dica, aviso, informação que lhe seja útil.

Bizuleu: O contrário de Bizu. Mau conselho ou algo ruim.

Cabeça-de-porco: navio pequeno, velho e ruim.

Cabo: A bordo não há corda. Tudo é cabo, exceto a corda do relógio

Cachorro chora: algo mal feito, de baixa qualidade ou em más condições.

Chico: o Comandante.

Cocha – favorecimento, ajuda.

Cochado – alguém protegido, favorecido.

Dar aspecto de formatura: arrumar uma mesa, um compartimento.

Dar volta, última forma – mudar de idéia, cancelar uma atividade.

De pau – estar de serviço.

Escamão – aquele que não realiza suas atividades.

Escamar – fugir do trabalho.

Está pegando: indica problema.

Estaleiro: enfermaria.

Etapa: vez (na minha etapa: na minha vez).

Faca cega: o cozinheiro.

Faina – tarefa.

Faxina – qualquer tipo de faina.

Ferro – âncora.

Jacuba: Tradicionalmente era a jarra onde se servia um refresco. Modernamente tem denominado também o próprio refresco.

Mel de coruja: limpeza rápida de um ambiente, arrumação.

Moita – pessoa que tenta não chamar atenção.

Na marca!: perfeito.

Nó cego: mau tripulante.

Onça: estar na onça (estar em dificuldade).

Pagar – servir/entregar algo.

Pagar embuste – contar vantagem.

Pega nada! – quando está tudo safo, sem chance de dar errado, sem problemas.

Pega nada!: tudo safo, sem problemas.

Pega tudo, mas não pega nada!: tudo sob controle.

Pegar tempo: mau tempo no mar, dificuldade para resolver um assunto. Ex.: “Peguei tempo na prova”.

Pegar: É o contrário de estar safo. Está pegando significa que não está dando certo.  Ex.: “O rancho está pegando! Não chegou carne”. Este marinheiro ainda está muito inexperiente: com ele tudo pega”. “Comandante, não pude chegar a tempo, a lancha pegou bem no meio da baía”.

Pegou!: quando algo saiu errado.

Pirangueira: empresa que paga pouco e não dá boas condições de trabalho.

Proa clara (em viagem): nenhum navio a vista.

Proa clara (em manobra): nenhum cabo na água.

Rancho – é tanto o refeitório, quanto a própria refeição.

Reforma – comer pela segunda vez.

Rela – lista, relação de itens ou coisas.

Remo: mau tripulante.

Remo torto: mulher feia.

Rosca fina: alguém que pressiona, que cobra o pronto.

Safa onça: Tudo que soluciona uma emergência Ex.: “Safei a onça, agarrando-me a uma tábua que flutuava”. “O meu safa onça foi um pedaço de queijo que ainda restava no barco. do contrário morreria de fome”.

Safar-se: resolver seu problema.

Safo: Certo, correto. Ex.:  “A faina está safa”. (não há problemas).

Soldada – salário, pagamento.

Tocar Marinha – fazer valer sua antiguidade, se impor.

Vaporzeiro: o tripulante.

Vencer: ter direito a alguma coisa (ex: passou do horário, vence folga no dia seguinte).

Vibrador – aquele com garra, com vontade.

Fontes: Arte Naval – Maurílio da Fonseca , Usos e costumes do mar, O Pelicano, EFOMM.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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