PORTO DE ITAJAÍ | Insipiência ou miopia seletiva?

OOCL Asia: 323 m de comprimento, 43 m de boca e capacidade de 8.063 TEUs

Declaração do coordenador-geral de acessos portuários da Secretaria Especial de Portos (SEP), Hilton César Falcone, causou polêmica durante a reunião de sexta (20) do Conselho da Autoridade Portuária do Itajaí. E me deixou perplexo.

Durante debate sobre a extensão da bacia de manobra, obra que pode permitir que o Complexo Portuário de Itajaí e Navegantes receba navios conteineiros de até 325 metros de comprimento e 8 mil TEUs de capacidade, Falcone afirmou que não valeria a pena executar a obra. A razão, segundo ele, é que os navios maiores teriam uma alternativa com mais espaço para manobras e de menor custo para atracação: o porto de São Francisco do Sul.

Falcone chegou a dizer que, se os armadores fizessem a conta, trocariam Itajaí pelo porto vizinho…

Aparentemente, o técnico da SEP é que não fez a conta — ou, ao menos, parte dela.

Vamos deixar uma coisa clara de saída: navio faz dinheiro enquanto navega. Por isso, interessa aos seus donos e operadores que ele fique no porto pelo menor tempo possível. Nesse contexto, Itajaí e Navegantes têm vantagens a oferecer: canal de navegação mais curto, maior oferta de berços para navios porta-contêineres e equipamentos mais adequados para movimentação das “caixas”.

Teria o cálculo do sabichão de Brasília considerado estes fatores?

Outro aspecto que merece ser destacado é o peso dos custos da escala do navio no porto,  frequente e impropriamente chamados “custos portuários”, nos custos do frete marítimo por TEU.

No post intitulado “Sem mágica”, procurei mostrar que os itens de maior impacto são os combustíveis e os custos de capital. Entretanto, em favor da concisão, silenciei quanto aos custos portuários, que são, na verdade, a soma dos gastos feitos pelo navio e pela carga em razão da escala no porto.

Pois bem: retomemos dois exemplos daquele texto.

Um navio de 1,2 mil TEUs de capacidade transportaria um contêiner de 20 pés a um custo de US$ 648. Os custos portuários? US$ 22, cerca de 1 dólar em cada 29. Agora, tomemos um navio de 8,5 mil TEUs: o custo por TEU cairia para US$ 395. E os custos portuários, para US$ 10, ou 1 dólar em cada 40.

Estaria o técnico do Planalto Central informado de semelhantes realidades?

Se não está, deveria ter evitado qualquer pronunciamento a respeito da pertinência da obra na bacia de manobras: não fica bem para uma autoridade governamental perpetrar parvoíces em público — e, de quebra, confirmar o quão limitado é o conhecimento e interesse da Secretaria Especial de Portos por Itajaí e pela economia do transporte marítimo.

Por outro lado, se ele as conhece e ainda assim disparatou, é possível supor que esteja a serviço de grupos que não têm interesse em ver Itajaí se tornar um dos portos brasileiros capazes de receber o que, para o Brasil, serão superconteineiros.

Seja insipiência ou miopia seletiva, é lamentável.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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