CHUVA EM SC | Fragilidades

Barragem Oeste, em Taió, superada pelas águas do rio Itajaí do Oeste (foto Prefeitura de Taió)

A presente cheia do rio Itajaí-Açu expõe ao menos quatro fragilidades do sistema de controle de enchentes existente na bacia do Itajaí.

A primeira é a Barragem Oeste, em Taió.

Enquanto escrevo, a água passa por cima da barragem de 83 milhões de metros cúbicos de capacidade, 10 milhões a menos que a barragem de Ituporanga, no Itajaí do Sul — e menos de um quarto do tamanho do reservatório da Barragem Norte, em José Boiteux, que pode receber até 357 milhões de metros cúbicos.

Se a Barragem Oeste tivesse metade do tamanho da Norte, a história nos munícipios a jusante, especialmente em Rio do Sul e Blumenau, seria outra, e talvez  o Itajaí-Açu não fosse um dos destaques na mídia, na internet e no Twitter.

A segunda é Itajaí.

Não há uma só obra de controle do nível do rio ao longo do leito principal do Itajaí-Açu desde Taió até lá — barragem, retificação, canal extravasor, nada. E também não há barragens que protejam a cidade do Itajaí-Mirim, que foi o principal causador da cheia em 2008. Com isso, a população e o porto itajaienses ficam à mercê das “águas do monte”, com risco para a vida humana e para a atividade portuária.

A terceira fraqueza é o que o jornalista Valther Ostermann chamou de “burocracia nojenta”.

Ocupado e preocupado apenas consigo mesmo, o burocrata nojento — pode ser homem ou mulher, pouco importa — se considera acima do voto e da lei por ser amigo do rei.

Ele não se emociona se a maior parte da telemetria de monitoramento do Vale do Itajaí está comprometida.

Ele não se interessa em servir às gentes e à economia da região, a menos que possa se servir também.

Este ser birrento e sem rosto tem um prazer sádico em represar verbas e decisões para mostrar a todos que está no controle. Se isto provocar uma tragédia, isso não lhe diz respeito.

A quarta vulnerabilidade? Nós, a sociedade.

Esperamos há ano e meio por obras de contenção de cheias. Nada se viu até agora. Promessas viraram palavras. Verbas foram cortadas. Projetos, adiados. Manifestação mais enérgica da opinião pública, nenhuma.

Pois agora a cheia nos convida a aprender com ela sobre o custo da inércia.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar

3 responses to “CHUVA EM SC | Fragilidades”

  1. Renan Raul says :

    Sobre a segunda fraqueza, os maiores prejuízos durante as cheias para Itajaí, em todas as épocas, parece ser o Itajaí-Mirim, mais até do que seu “irmão maior”. Mesmo assim, a única medida tomada foi a abertura do canal retificado – e hoje assoreado, inútil contra o volume cada vez maior de água.

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