Nem santos, nem demônios

O encalhe do graneleiro de bandeira chinesa Shen Neng 1 transformou-se em uma metáfora de várias faces.

O acidente pode ser tomado como uma referência à ameaça posta pelo apetite insaciável dos emergentes por commodities e energia. Ou à recém-adquirida dominância da China no comércio internacional. Poderia ser, também, o símbolo de um enfrentamento entre o novo capitalismo global e a necessidade de preservar nosso mundo.

São ideias de grande apelo para a maioria do público, que pouco ou nada sabe dos detalhes do encalhe.

Mas Deus reside nos detalhes.

Considerem, por exemplo, a presença do nome Cosco em quase todos os informes sobre o assunto. O navio é de propriedade da Shenzhen Energy Transport. A Cosco é sócia-proprietária da companhia que opera o navio. E só.

Ocorre que a ideia de apontar a Cosco como culpada trazia consigo um espécie de justiça poética. Afinal, a Cosco é uma gigante estatal, uma representação do poder marítimo do “Dragão Chinês” — e ela já tinha tido dois outros navios envolvidos em derramamento de óleo nos últimos três anos.

A ideia, encantadora, não se ajusta aos fatos. Então, que se alterem os fatos, quando menos para consumo externo.

Qualquer que seja o resultado do desastre e da investigação, é preciso ser razoável e ter em conta que o encalhe não pode ser tido como um sinal de indiferença da China por uma das maravilhas naturais da Terra.

Por outro lado, é certo que a Austrália compreende o valor e a beleza da Grande Barreira de Coral. Mas ela tem sua parte de responsabilidade pelo acidente, ao deixar a Barreira sujeita a um sistema de praticagem considerado ‘imperfeito’ pelo Comandante Peter Liley, presidente do Instituto Australasiano de Práticos.

O modelo atual entrou em vigor em 1993, época na qual “o racionalismo econômico estava no auge e a competição era tida como uma panaceia”, nas palavras de Liley. Contudo, a estrutura resultante não se presta a supervisão ou controle. Pior: não está radicada em uma cultura de segurança, nem a promove.

Se é verdadeiro, o discurso em favor da proteção da Barreira de Coral — e do meio ambiente, de forma geral — precisa de mais serenidade no entendimento dos percalços, e menos metáforas oportunistas.

Adaptado da Lloyd’s List (texto original em inglês acessível no Blog Safe Seas)

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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