Meia-verdade, mentira inteira: um pós-escrito

Logo depois de ter escrito “Meia-verdade, mentira inteira”, vi que o Jornal de Santa Catarina publicou matéria relacionada ao tema daquele post.

Cito, primeiramente, declarações do delegado da Capitania dos Portos em Itajaí, comandante Alexandre Malizia:

Fomos informados pelos práticos das dificuldades encontradas, como perda de velocidade e de força em determinados pontos. Como não recebemos dados atualizados de batimetria, tomamos essa medida, provisória, de reduzir a profundidade de 10,5 para 10 metros.

Deveríamos ter recebido uma [batimetria] em janeiro, mas não ocorreu. A batimetria de março não estava de acordo com as normas da Marinha, por isso não foi considerada.

As manifestações do delegado deixam claro quais foram os problemas que o levaram a tomar a decisão de reduzir as profundidades. Não há ambiguidade entre o que ele escreveu e o que ele declarou ao repórter Fernando Arruda.

Por outro lado, a atitude da Autoridade Portuária deixa a desejar.

Para começo de conversa, tem-se o diretor comercial do porto a opinar sobre manobras, afirmando que elas “estavam mais difíceis por causa do excesso de material que pode ter acumulado no fundo do Rio Itajaí-Açú.”

Ocorre que, se as batimetrias tivessem sido apresentadas no tempo devido, este suposto acúmulo teria sido percebido ainda em janeiro e poderia ter sido corrigido a tempo. Depois, o Porto de Itajaí tem diretor técnico, e é de supor-se que ele teria melhores condições de esclarecer a ocorrência.

Mas é possível piorar:

Quanto à batimetria, o diretor afirma que pode ter ocorrido algum equívoco na medição:

– A batimetria nunca deixou de ser feita. Fizemos um contrato emergencial e uma outra empresa começou a fazer a medida hoje (ontem). O resultado deve estar pronto na próxima semana.

De acordo com Grantham, o Porto de Itajaí abrirá licitação para contratar uma empresa que fará os próximos exames de batimetria no rio.

Primeiramente, se a batimetria nunca deixou de ser feita, deixou de ser entregue — o que, para efeitos práticos, equivale a deixar de fazer a batimetria. Segundo, se as sondagens estavam a ser feitas, não haveria razão para contratar outra empresa para fazer o que estava sendo feito normalmente. Terceiro, a licitação para escolha da empresa responsável pelos levantamentos das condições do fundo do canal de acesso já deveria ter sido feita em 2009.

Por fim, não há como deixar de observar a confusão nas prioridades: a batimetria, que sai por R$ 20 a 30 mil e repercute sobre a segurança e eficiência do porto e da navegação, foi negligenciada — enquanto a publicidade do Porto, que certamente custa muito mais, esta está em dia, alardeando a recuperação do Complexo Portuário.

Se não tem carne, mas tem pastel de carne, aí tem.

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar

2 responses to “Meia-verdade, mentira inteira: um pós-escrito”

  1. Daniel Poffo says :

    Segundo informações da empresa contratada para fazer as batimetrias (Hidrotopo), não havia contrato há oito meses com o Porto de Itajaí para fazer batimetrias. Ou seja, o canal estava entregue a própria sorte, nas mãos da empresa que faz a dragagem de manutenção, e sem fiscalização alguma, por mais de meio ano.

    • Alexandre da Rocha says :

      Daniel, está aí mais um exemplo de como a Autoridade Portuária ainda trata como despesa o dinheiro que deve gastar com a segurança da navegação — gasto que é, em verdade, um investimento.

      Atitudes desleixadas como a que você relata mostram claramente o perigo de se deixar a segurança do transporte marítimo à mercê de interesses de ordem essencialmente comercial ou política.

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