Realidade virtual: a Transpetro e a ressureição do transporte marítimo

Capa da revista Fairplay

Sérgio Machado, presidente da Transpetro, na capa da revista inglesa Fairplay

O Brasil chegou lá, de novo.
A prestigiosa revista britânica Fairplay (http://www.fairplay.co.uk) dá amplo destaque presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com direito à primeira capa de 2010.
O conteúdo da reportagem é exclusivo de assinantes da publicação, mas publico aqui uma versão brasileira da matéria.

Os ambiciosos planos de Sérgio Machado para a frota de petroleiros da Transpetro e a indústria de construção naval do Brasil dependiam de estaleiros ‘virtuais’ inexistentes. Fairplay analisa a forma como os seus planos tomaram forma

Em junho de 2003, o presidente Lula escolheu pessoalmente Sergio Machado para o cargo de presidente da Transpetro, o braço de transportes e logística da Petrobras, gigante do petróleo. Este papel envolvia diversos desafios, entre os quais a renovação da frota de petroleiros, orçada em mais de US$ 4 bilhões, e a modernização da construção naval do país.

Para ajudá-lo, Lula deu-lhe um orçamento multibilionário e umas poucas restrições. No entanto, o objetivo era surpreendente: a renovação e o reforço da frota, de modo que a Petrobras – e, portanto, o Brasil – pudesse economizar anualmente bilhões de dólares em frete.

Em 2004, a Petrobras estava gastando US$ 8 bilhões no transporte de petróleo para exportação; dados mais recentes sugerem que o valor cresceu para US$ 12.5 bilhões por ano, em razão de afretamentos de longo prazo de mais de 100 navios para atender a suas necessidades em navios-tanque e embarcações offshore.

Machado assumiu uma postura dura desde o início. “Nós tínhamos um grande desafio no início do processo”, refletiu ele em seu escritório do Rio de Janeiro, no ano passado. “Tantos obstáculos e críticas, mas persistimos.”

Um de seus adversários mais implacáveis foi Wagner Victer, que foi responsável pela energia e construção naval para o estado do Rio de Janeiro. Victer zombou de Machado por fazer o consórcio Atlântico Sul, na primeira rodada das propostas para o Promef-1 , uma fase do programa de renovação da frota da Transpetro com orçamento de US$ 2,3 bilhões. Até agora, dos 49 navios previstos nos Promefs 1 e 2, 41 contratos foram assinados.

Victer não se impressionou. “É altamente imoral … permitir que um” estaleiro virtual “, sem pátio, sem soldadores, sem guindastes ou projetistas, participe da licitação deste contrato”, disse à Fairplay na época.

A resistência não conseguiu ganhar impulso. O Atlântico Sul venceu a licitação para construir 10 navios petroleiros Suezmax por US$ 1,2 bilhão e logo depois iniciou a construção de um estaleiro de US$ 1 bilhão em Suape. Essa instalação, o maior e mais moderno estaleiro do hemisfério sul, está assentada em encomendas de cerca de US$ 3 bilhões. “Não é mais um estaleiro virtual”, Machado comentou recentemente. “É claramente uma realidade e uma realidade de muito sucesso neste ponto.” A Transpetro pode até escolher outro estaleiro virtual na disputa pela construção de oito navios transportadores de gás: o consórcio Promar Ceará, que tem local mas não o estaleiro, fez a melhor proposta pelos navios gaseiros. Fontes no Rio de Janeiro acreditam que o consórcio é o favorito para vencer os já conhecidos estaleiros Eisa e Mauá.

A construção naval brasileira tem tido dificuldades para conseguir encomendas de navios maiores ao longo das últimas duas décadas, preferindo concentrar-se em embarcações offshore, mas a indústria sempre foi dominada pelo Rio de Janeiro. Os governadores fluminenses Rosinha e Anthony Garotinho foram radicalmente contra a descentralização de Machado, e tentaram  proteger a supremacia do Estado na construção naval apoiando a beligerância de Victer. A despeito das previsões, Machado parece ter triunfado. “Eu nunca tive problema com os estaleiros virtuais”, disse Machado Fairplay. “Se tentássems impedir o surgimento de novas empresas, o mundo do comércio pararia de girar.”

No entanto, ele não aconselha olhar para o passado com a visão do presente, ou julgar as decisões de ontem, a partir dos valores de hoje. “Os novos participantes devem enfrentar os desafios do futuro. É neste contexto que o surgimento do Atlantico Sul deve ser entendido. Nós certamente nos sentimos justificados pela forma como as coisas têm se desenvolvido. ”

Depois de anos de erros custosos – alguns deles cometidos em estaleiros do Rio e outros feitos ao se depositar confiança em novos armadores brasileiros que malbarataram empréstimos subsidiados, ajuros abaixo do mercado, junto do Banco Nacional de Desenvolvimento – Machado, auxiliado por Lula, queria restaurar o orgulho da navegação e da construção naval brasileiras.

Inicialmente, Machado entrou em choque com algumas “forças inamovíveis” formidáveis. Além de Victer, Machado sofreu oposição por parte dos fabricantes de aço, entre eles a Companhia Siderúrgica Nacional, Gerdau e Usiminas, por suposta “hipocrisia”. Alegaram que ele era legalmente obrigado a utilizar 65% de componentes e produtos brasileiros na construção de navios Promef, mas, ao invés disto, ele estava a importar grandes quantidades de aço, porque era mais barato.

Machado foi acossado por Victer, pelo casal Garotinho e pelas empresas siderúrgicas brasileiras, mas ele é movido pela necessidade de concretizar seus objetivos até o final de 2010, quando Lula deixa a Presidência. O objetivo agora é completar o Promef 2 (lançado em meados de 2009 para mais 26 navios, a um custo de US$ 2 bilhões), e preparar o caminho para o Promef 3 antes das eleições presidenciais, em outubro.

Machado traz para a Transpetro a visão de negócios do capitalista. Ele também é apaixonado por controle de custos. “Eu disse desde o início do Promef, em 2004, que eu não queria que a Transpetro pagasse mais por estes navios mais do que eles valem, e estou mantendo a minha promessa”.

Ele conduziu missões de aprendizado sobre construção naval na Coreia do Sul, China e Japão para ver como o Brasil poderia melhorar e, de forma controversa, assumiu a responsabilidade total pela compra do aço para os estaleiros que vencerem as licitações da Transpetro.

“O aço representa cerca de 30% do total dos custos, por isso tenho de manter esses custos baixos, e se isso significa importar, então é isso que nós vamos fazer. Nós preferimos comprar no Brasil, mas se for muito caro, vamos procurar em outro lugar.” Machado já comprou de aço da Ucrânia, da China e da Coreia do Sul.

Um de seus colegas da Transpetro disse que os preços do aço tinham sido o principal problema para o programa de construção de novos navios. “Quando os preços são competitivos aqui, vamos comprar no Brasil, mas, se não são, buscamos em outra parte. Já compramos de oito países diferentes e cerca de 33% do aço comprado até agora tem vindo do exterior. ”

O pensamento estratégico de Machado de Assis caracteriza-se pela atenção aos detalhes. Ele envia equipes de pesquisadores e gestores para o complexo do Atlântico Sul complexo para assegurar que o estaleiro está a cumprir as rigorosas especificações da Transpetro. O diretor executivo do estaleiro, Angelo Bellelis, descreveu Machado como um dos pilares fundamentais do desenvolvimento do estaleiro. “Ele está sempre nos incitando a avançar”, disse ele.

No centro das atenções: Sergio Machado

Nascido em Fortaleza, no estado do Ceará,

Graduado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro.

1982: Presidente do Centro Industrial do Ceará

1987-1990: Secretário do Governo do Estado do Ceará

1991-1995: Deputado federal

1995-2002: Senador e líder de seu antigo partido, o PSDB (1995-2001)

2002: Filiado ao PMDB

2003: Presidente da Transpetro

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About Alexandre da Rocha

Nasci carioca, nasci guanabarino. Desconfio que nasci marinho. Cheguei a deixar do mar, sim... Mas cadê que o mar deixou de mim? Vim morar
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